A casa precisava de uma
faxina. Consegui colocar quase tudo no lugar, mas precisava passar pano, tirar
poeira, lavar o banheiro, lavar os panos de chão... se for a lista vai indo. Não
eram coisas demoradas, dava pra fazer. Dava pra adiantar a vida pra Carolina do
futuro.
Mas eu vi o Tarcísio
soltando papagaio e eu comecei a me perguntar o que eu faria com meu tempo se
eu não tivesse que assumir essa skin dona de casa. Se não tivesse que me
preocupar com as marmitas da semana, com a compra por fazer...
O tempo feminino é roubado
e aos poucos vamos nos deixando dentro dessa rotina do dia-a-dia, de cumprir as
funções e dar conta do que tem que ser dado conta. São necessidades que ninguém
fará por mim, mas ao mesmo tempo o que eu poderia fazer desse tempo?
Pensei em enfim tirar o
instagran das semijoias das ideias – pedi ajuda pra isso e recebi um ‘’vou te
ajudar’’ que não se concretizou. Mas eu preciso fazer isso por mim. Também
queria fazer uma limpa no guarda roupa e postar no bazar o que desse pra
vender. Provavelmente se ainda morasse na minha vó essa seria minha atividade/demanda
escolhida.
Aí lembrei de um pouco
antes... de quando era ainda mais jovem e não tinha nem demandas financeiras e
nem as demandas de uma casa e uma vida. É peculiar o quanto o jovem se sente privado
de liberdade e olhando em retrospecto eu era tão livre na gestão do meu tempo.
Provavelmente estaria em alguma varanda apreciando o fim de tarde e lendo algum
livro de romance. Na verdade, eu preciso reler meus antigos diários porque o
passado é tão romantizado nas minhas memórias que duvido que eram tão floridos
assim os meus dias.
Eu sinto que uma parte da
dificuldade de dar conta das demandas atuais é a solidão. Queria alguém aqui
para conversar enquanto limpava a casa ou esvaziava o guarda-roupa. Queria companhia
pra preencher esses momentos. Me sinto muito sozinha, principalmente aos sábados.
Quando eu era mais nova meus dias eram tão preenchidos por pessoas, amizades,
passeios, etc... que eu conseguia apreciar e valorizar o meu tempo sozinha. Mas
hoje a maior parte do meu tempo é sozinha. A rotina do trabalho, de estar
cercada de pessoas pelas obrigações e demandas do dia-a-dia mascara a solidão
nos dias de semana. Mas ela aperta final de semana, porque as relações sociais
do trabalho não são escolhas e não me nutrem o suficiente. Quando aprecio a
solidão de segunda a sexta, é pelo cansaço e silêncio. Quando eu apreciava meus
momentos sozinha na juventude era porque me sentia nutrida e preenchida de
socializações. Eram momentos de escolha e não o que tem pra hoje. Porque
ninguém nunca pode...
Fato é que larguei as
demandas e resolvi escrever. Primeiro pra sentir, fisicamente, as palavras
sendo digitadas. Sentir o teclado com as pontas dos dedos e lembrar de qual era
a sensação. Uma sensação que sempre me agradou. Dei um sorriso ao configurar o
word de acordo com as regras da ABNT que eu sempre usava na faculdade e acho
que eu nunca mais irei conseguir escrever um texto que não esteja justificado.
Queria escrever um conto erótico, picante, exercitar minha imaginação, criar
personagens fincados no universo do meu desejo. Mas acabei introduzindo as
reflexões do meu dia e desfazendo o novelo que estava embaraçado na minha
cabeça.
Terapia tem feito falta,
é fato. Me sinto perdida de mim, identifico as questões, mas não consigo pensar
em saídas ou soluções. Queria um direcionamento para saber como lidar com as
angustias, que nos são parte constitutiva, mas ainda assim doloridas.
Queria tantas coisas do
meu sábado, do meu tempo e fiz dele o que deu pra fazer. Muito pouco pela Carolina
do futuro e será que algo pela Carolina do presente?
Já é hora de tomar banho
e encontrar o Tarcísio.