quinta-feira, 30 de abril de 2026

E doi

 

É muita loucura, chega a ser irracional sofrer por algo que nunca viveu, nunca conheceu. Sofrer e sentir falta de algo que nem sabe como é, como teria sido. E ai a dor é mais apertada, porque se sofre por algo que se imagina e o que a gente imagina é sempre melhor, é sempre perfeito.

Mas já que eu estou sofrendo eu vou mergulhar de cabeça e dizer que é injusto o ‘’se’’ não ser possível.

É injusto que não pudemos ter tempo, tempo pra namorar, pra se conhecer, tempo pra que eu me arrumasse no sábado a noite e você me buscasse pra um encontro. É injusto que não pudemos ter tempo pra criar intimidade, pra ter medo, vergonha e todos aqueles sentimentos de quando começamos a gostar de alguém e queremos impressionar e fingir que não somos quem realmente somos. E tempo para ir desvendando aos poucos quem realmente somos e construirmos juntos quem realmente somos. Tempo pra aprender os gostos um do outro, pra construir memórias juntos, e piadas internas e todas aquelas coisas...

É injusto que a possibilidade que tivemos seria apenas pular todas essas etapas e ir direto pro furacão que seria caso resolvêssemos ficar juntos. Que já pulássemos direto pra fase das inseguranças, dúvidas, questionamentos. Que pulássemos pra fase da rotina e da reprodução automática de uma vida anterior, porque não tivemos tempo de criar a nossa própria vida. Que caíssemos de cabeça numa vida já pronta sem tempo pra se perguntar se realmente quer, porque pra nós não haveria tempo pra dúvida, seria um é isso ou não é.

E não foi. Mas não foi. Não foi e eu nem pude escolher que não tivesse sido. Você escolheu por nós. E provavelmente foi o mais sensato, porque provavelmente nos arrependeríamos e mataríamos esse amor gostoso que hoje existe e que se baseia na imaginação e não na realidade crua da convivência.

Mas ainda assim me doi, me doi pensar em como seria dividir meus dias com você e me doi porque eu imagino manhãs perfeitas de sexo matinal, de fazer hora na cama, de ter você fresco depois de um banho. De noites no sofá assistindo tv agarradinhos (assistindo o que? Eu nem sei o que você gosta de assistir. E doi.). Me doi pensar em ser cuidada por você, em ter um filho com você, de olhos azuis como o seu. Me doi pensar em tudo o que poderia ser e não foi e não vai ser. Todas as escolhas que eu jamais tive a chance de fazer.

Eu não sei o que é ser amada por você, na verdade eu nem sei quem é você e doi.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Contando os minutos

Hoje o meu esforço e o meu trabalho foi diretamente proporcional ao esforço e desejo de estudar dos meus alunos. 
Nenhum. 
Passei uma matéria no quadro, distribui vistos, mas não dei uma palavra sobre nada que havia colocado no quadro. Não chamei atenção de ninguém - quase ninguém. Esqueci minha garrafinha de água e me dei essa desculpa consciente de que sem a garrafinha seria impossível passar as seis aulas explicando matéria e cobrando atenção. 
Mas a verdade verdadeira é que eu não sei, mas hoje simplesmente eu não quero nada. 
Não queria ter terapia hoje, não queria falar, não queria ter que revisitar tudo que fiquei ruminando semana passada e passar mais uma semana ruminando tudo outra vez sem chegar a lugar nenhum. 
Queria uma distração que me empolgasse, me desse emoção, me desse um sopro de vida... e você sabe bem qual seria. 
Queria almoçar besteira no shopping, pegar um cinema e olhar as lojas, talvez comprar uma ou duas coisas. Aproveitar o dia.
Mas eu dormi pouco e estou cansada, com certeza cochilaria no cinema. 
E o dinheiro... tem também o dinheiro. 
Não dá pra gastar de forma incalculada, sem refletir sobre...
Quero comprar um ovo de páscoa ferreiro rocher. 
Mas tudo da um fundo de culpa. De comer, de gastar... algum dia a gente vai poder viver sem culpa? 
Acho que a verdade é essa, acordei desanimada com a minha realidade e um tanto quanto cansada. 
Não foi esquecer a garrafinha, foi esquecer a motivação de viver em algum lugar recôndito dentro de mim. 
E ninguém seque notou, sequer questionou (graças a deus!), até porque em geral eu sou uma boa profissional. 
Contando os minutos para acabar e poder almoçar e dormir. 

sábado, 17 de maio de 2025

Reflexões de um sábado

 

A casa precisava de uma faxina. Consegui colocar quase tudo no lugar, mas precisava passar pano, tirar poeira, lavar o banheiro, lavar os panos de chão... se for a lista vai indo. Não eram coisas demoradas, dava pra fazer. Dava pra adiantar a vida pra Carolina do futuro.

Mas eu vi o Tarcísio soltando papagaio e eu comecei a me perguntar o que eu faria com meu tempo se eu não tivesse que assumir essa skin dona de casa. Se não tivesse que me preocupar com as marmitas da semana, com a compra por fazer...

O tempo feminino é roubado e aos poucos vamos nos deixando dentro dessa rotina do dia-a-dia, de cumprir as funções e dar conta do que tem que ser dado conta. São necessidades que ninguém fará por mim, mas ao mesmo tempo o que eu poderia fazer desse tempo?

Pensei em enfim tirar o instagran das semijoias das ideias – pedi ajuda pra isso e recebi um ‘’vou te ajudar’’ que não se concretizou. Mas eu preciso fazer isso por mim. Também queria fazer uma limpa no guarda roupa e postar no bazar o que desse pra vender. Provavelmente se ainda morasse na minha vó essa seria minha atividade/demanda escolhida.

Aí lembrei de um pouco antes... de quando era ainda mais jovem e não tinha nem demandas financeiras e nem as demandas de uma casa e uma vida. É peculiar o quanto o jovem se sente privado de liberdade e olhando em retrospecto eu era tão livre na gestão do meu tempo. Provavelmente estaria em alguma varanda apreciando o fim de tarde e lendo algum livro de romance. Na verdade, eu preciso reler meus antigos diários porque o passado é tão romantizado nas minhas memórias que duvido que eram tão floridos assim os meus dias.

Eu sinto que uma parte da dificuldade de dar conta das demandas atuais é a solidão. Queria alguém aqui para conversar enquanto limpava a casa ou esvaziava o guarda-roupa. Queria companhia pra preencher esses momentos. Me sinto muito sozinha, principalmente aos sábados. Quando eu era mais nova meus dias eram tão preenchidos por pessoas, amizades, passeios, etc... que eu conseguia apreciar e valorizar o meu tempo sozinha. Mas hoje a maior parte do meu tempo é sozinha. A rotina do trabalho, de estar cercada de pessoas pelas obrigações e demandas do dia-a-dia mascara a solidão nos dias de semana. Mas ela aperta final de semana, porque as relações sociais do trabalho não são escolhas e não me nutrem o suficiente. Quando aprecio a solidão de segunda a sexta, é pelo cansaço e silêncio. Quando eu apreciava meus momentos sozinha na juventude era porque me sentia nutrida e preenchida de socializações. Eram momentos de escolha e não o que tem pra hoje. Porque ninguém nunca pode...

Fato é que larguei as demandas e resolvi escrever. Primeiro pra sentir, fisicamente, as palavras sendo digitadas. Sentir o teclado com as pontas dos dedos e lembrar de qual era a sensação. Uma sensação que sempre me agradou. Dei um sorriso ao configurar o word de acordo com as regras da ABNT que eu sempre usava na faculdade e acho que eu nunca mais irei conseguir escrever um texto que não esteja justificado. Queria escrever um conto erótico, picante, exercitar minha imaginação, criar personagens fincados no universo do meu desejo. Mas acabei introduzindo as reflexões do meu dia e desfazendo o novelo que estava embaraçado na minha cabeça.

Terapia tem feito falta, é fato. Me sinto perdida de mim, identifico as questões, mas não consigo pensar em saídas ou soluções. Queria um direcionamento para saber como lidar com as angustias, que nos são parte constitutiva, mas ainda assim doloridas.

Queria tantas coisas do meu sábado, do meu tempo e fiz dele o que deu pra fazer. Muito pouco pela Carolina do futuro e será que algo pela Carolina do presente?

Já é hora de tomar banho e encontrar o Tarcísio.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

Detalhes

 Belo Horizonte, 05 de janeiro de 2009

Era uma noite de segunda-feira. Já estava tarde mas ela não costumava se deitar cedo. Não sabia se estava frio ou quente. Usava uma blusa de frio que não deixava sentir frio nem calor. Como tinha que escrever uma carta, acabou escrevendo um texto. Mais um que iria para sua gaveta com a esperança de daqui uns anos ser lançado em um grande livro. Mas ela não queria escrever sobre isso, estava apenas enriquecendo, como pede um bom texto, de detalhes. Era exatamente isso que se tratava seus pensamentos naqueles dias nublados (tanto por fora, quanto por dentro). 

Num bom texto se utiliza a perfeita caracterização do ambiente, personagens e tudo. Eu imaginava que era uma grande bobagem mas como viajar com um livro que não te dá uma base. Por isso os detalhes são de grande importância, além de, na minha opinião, ser como uma taça de vinho. O charme, o complemento. 

Creio que na vida se tenha o mesmo uso. Os detalhes complementam, fazem flutuar, dão charme ao dia-a-dia das pessoas. Detalhes como a aliança que ele estava usando aquele dia. Um simples objeto que, sem poder falar, me contou todos os segredos que talvez nem você saiba, ainda. 

Os detalhes são muito importantes. Destalhes como esse que podem acabar com meses, não. Meses já passaram. Esses detalhes podem acabar com o resto dos meses que nos resta. Mas de que adianta se quando chega a hora ela não vai embora? É melhor que chegue agora e não percamos mais a hora. Nem a boa e velha rima tão saudáveis a um bom e doce amor. 

Não temos o que temer, apensar de já começar a tremer. O que tiver que ser será, é a felicidade que importa. A carta já estava grande quando o nó chegou a garganta dela, sufocando de leve e a mão já dava sinal de dor, pois trabalhava com rapidez. Ela notou que o tempo voou e tratou de se apressar e deixar as coisas se acalmarem rezando por força e luz, como sempre.

Botando a carta na gaveta, cheia e bagunçada, ela foi dormir olhando pela janela, esperando chover.  

27/12/2014 - o menos se tornou suficiente para ser fim

Sabe quando você precisa contar pra alguém para ouvir sabe-se lá o que, que talvez nem te ajude e talvez você até se arrependa depois de ter começado a conversa...

Eu queria que contando e explicando desbanalizasse todo o fato pelo qual se deu o fim. Acrescentar motivos e razões razoáveis para que ninguém risse ou me julgasse. Queria dizer: ''Não foi só isso!'' é claro, mas eu nem sei se seria totalmente verdade. 

Quem sabe foi só isso mesmo?

Talvez só isso fosse o suficiente para acabar porque o que tinha já não possuía bases tão sólidas mais como antes. 

O fato é que foi um grito de socorro pedindo mais. Mais amor, mais carinho, mais atenção, mais IMPORTÂNCIA. Que eu fosse mais prioridade e que minha tristeza fosse mais ouvida. 

Talvez isso tudo demonstre que realmente nada era suficiente pra mim e que eu precisava de um mais que você não pode me dar. E o menos se tornou suficiente para ser fim.  

05/08/2009

 Tudo que eu já vivi, as vezes eu paro e encontro por ai... 

Esquecida numa roupa, num diário... aquele sorriso ou época, sempre ressurgem trazendo lembranças e saudades de tudo que já passou. 

A vida é feita de momentos únicos, felizes ou não, mas sempre inesquecíveis. 

Não adiantar mudar, trocas os móveis de lugar...

Uma hora ou outra com aquelas lembranças iremos trombar. 

É bom saber que já vivemos, é bom ter o que contar.

Então deixo tudo anotado, registrado.

Não é o medo de esquecer, é a vontade de lembrar!


Cartas para ninguém

Obrigada por existir e me aceitar bem assim como eu sou, aceitar meus desejos, meus impulsos, minhas loucuras e inconstâncias. Eu quero ter você aqui perto de mim enquanto for assim, feliz. Nossas músicas tocando e quando acabar eu te abraçarei e irei procurar meu caminho.